As razões do silêncio
POR MARCO FRENETTE*
Para além das preferências e idiossincrasias de cada um, o golfe é conhecido – e reconhecido – como um esporte difícil. Ao terem o primeiro contato com esse jogo de cavalheiros, muitos atletas de ponta de outras modalidades se admiram com o apuro técnico e o autodomínio exigidos. Essa peculiaridade envolvendo equilíbrio emocional e movimentos precisos confere ao golfe uma marca distinta: a imprescindível inclusão do silêncio como aspecto esportivo.
Uma exclamação de alegria ou lamentação, ou até o barulho do zíper da taqueira ou do felcro da luva podem arruinar o swing do jogador, sobretudo no início do downswing, quando a concentração do golfista está em seu momento mais intenso e delicado. O motivo das coisas serem assim está nas delicadas engrenagens física, mental e psicológica que compõem o comportamento humano e seus níveis de desempenho; e o golfe, curiosamente, potencializa todas as fragilidades dessas ligações, as quais são menos afetadas se o silêncio é mantido durante a preparação do jogador pouco antes do swing, e também durante seus movimentos.
A paisagem sonora – A rigor, o silêncio total não existe nem no golfe e nem em nenhum outro momento da vida. Mas aqui encontramos outro aspecto interessante do golfista: a triagem mental – tanto natural quanto involuntária – que ele faz dos sons que irão interferir ou não em seu swing e em seu foco. Sons distantes, a exemplo do ruído intermitente de uma máquina cortando grama no fairway ao lado, ou da natureza, como o canto dos pássaros ou o barulho do mar, podem ser assimilados sem prejuízo do jogo, mas um ruído feito por outro jogador num plano mais próximo pode ser sentido como inadmissível. Isso ocorre porque o ruído do jogador causa uma fissura na já assimilada paisagem sonora (para emprestarmos o conceito de “soundscape” de Murray Schaeffer), na qual os outros sons estão inseridos de modo, digamos, harmonioso. Já a inesperada grosseria do barulhento durante o swing equivale a microfonia durante a execução de uma música, ou a pincelada errada em uma pintura que prometia, até ali, bons resultados estéticos.
Reflexão versus instinto – Um dos principais motivos da necessidade de silêncio – ou, para sermos mais exatos, da manutenção da mesma paisagem sonora na qual o golfista iniciou sua rotina pré-tacada – é que o swing de golfe exige reflexão. Mesmo os golfistas que dizem jogar instintivamente estão, na hora em que param na bola, pensando nos movimentos. Uma forma de compreender isso é fazer uma comparação com o beisebol. O swing de beisebol é, basicamente, uma reação instintiva à bola que se aproxima velozmente, o que significa dizer que o rebatedor não pode escolher o momento de iniciar o swing: a bola está vindo e o momento é aquele. Já o swing de golfe não é uma reação, pois a bola está parada na grama e não vai a lugar nenhum se o jogador não impactá-la. Portanto, é o golfista que deve “construir” sua “reação instintiva”, a qual desencadeará um swing “pensado”, tornando-se um peculiar embate entre razão e instinto, ou, se desejarmos usar o belo título do romance de Jane Austen, entre razão e sensibilidade.
As engrenagens invisíveis – Bem, essa exata mescla de razão e sensibilidade não é encontrável, provavelmente, em nenhum outro esporte. Ou talvez apenas na prática da arqueria zen, que permite um paralelo com o golfe por ser uma das mais sofisticadas artes visando a perfeita interação entre mente e corpo, ou, se preferirmos a exatidão dos mestres orientais, a perfeita conexão entre o espiritual e o material: “Ao praticar o arco e flecha, o objetivo não é atingir o alvo externo que está na sua frente, mas alcançar e atingir algo maior e mais dinâmico que está dentro de você; e tudo depende de sua sintonia com as forças imateriais que o cercam”, afirmou certa vez o filósofo alemão Eugen Herrigel, o autor do famoso A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen.
Naturalmente, a movimentação de todas essas engrenagens invisíveis não são identificadas de modo consciente pela maioria dos golfistas. No entanto, a existência de sutilezas maiores é sempre sentida, ou pressentida, toda vez que um golfista tenta melhorar seu swing e seu jogo. Após incontáveis tentativas (contabilizadas em anos ou décadas) o golfista termina por se entregar aos movimentos fluídos e ritmados, os quais dependem de segundos de absoluta paz para se encaixarem perfeitamente. Nesses momentos, o estado psicológico e sensorial do golfista pode justificar a famosa frase de John Cage: o silêncio também é música. É por isso que os golfistas de handicaps baixos tendem ao silêncio, enquanto que os de handicaps altos tendem à estridência. Não é uma questão de opção, mas de exigências inerentes às naturezas distintas do golfe superior e do golfe inferior.
A interrupção do silêncio – Claro que, durante o jogo, a quebra do silêncio pode ser uma atitude simpática, a exemplo do momento em que todos estão saindo do tee e caminhando para suas bolas pousadas no fairway. Observações bem-humoradas também podem cair bem quando todos estão parados esperando o grupo da frente terminar de jogar. Também uma sincera palavra de incentivo ou consolo pode salvar a partida do jogador que ouve a gentileza.
Por outro lado, a quebra de silêncio nos momentos errados significa, no plano superficial, uma mistura de falta de educação com falta de respeito para com o jogador que está batendo ou se preparando para bater. Já no plano mais profundo, o fazedor de barulhos revela sua dificuldade em entrar em contato com as emoções e exigências mais plenas do jogo, limitando-se a um embate grosseiro com seu ego e com sua vontade de marcar presença: é aquela proverbial revelação em campo de uma espécie de comportamento infantil deteriorado.
Comportamentos inconscientes – Naturalmente, nada disso é muito consciente. Na maioria das vezes, o golfista não tem intenção de agir deseducadamente, e muito menos de desrespeitar o adversário. Geralmente, as ações deletérias ocorrem num clima de descontração ou tensão em que o jogador inconveniente age sem pensar. Mas pensar deve fazer parte do jogo. “Um golfista precisa sempre estar atento aos seus atos em campo, pois se no jogo do golfe não há como interferir diretamente na performance do outro, é possível incomodá-lo e atrapalhá-lo com ruídos e movimentos inconvenientes. Isso é contra o espírito do golfe e da boa educação”, afirmava Harvey Penick, um humilde instrutor do Texas que se tornou um grande mestre graças à sua capacidade de se ater ao óbvio que vive nos escapando.
* Marco Frenette é escritor, golfista e editor da revista Golf Life.
O ponto de vista dos colunistas não expressa necessariamente a opinião da CBG.